Quando embarcámos nesta aventura vínhamos ainda cheios dos nossos problemas de Portugal: uma crise que a todos asfixia… um Governo do qual muitos reclamam… greves e manifestações…
Falávamos de salários baixos e alto custo de vida, dos trocos que tínhamos de poupar e de um emprego das nove às cinco que nem sempre era tão estimulante como queríamos. E que todos nós… um dia, ainda gostávamos de ir para o estrangeiro.
De repente na Palestina, para além de todo o conflito de Gaza que emanava de cada poro da rua, somos confrontados com um intercâmbio onde nos pedem, também, para falar do nosso país e de conflitos que entre nós pudessem existir.
Os palestinianos falaram da guerra, claro. Do sufoco que é viver sob o jugo de Israel. Do dilema político que enfrentam entre um Hamas terrorista e uma Fatah corrupta. De um apertado sistema de crenças culturais que os asfixia mais ainda nas liberdades individuais e religiosas.
Os turcos falaram do eterno problema que têm de identidade cultural, da questão dos Curdos, da
democracia ténue que os ocidentais não reconhecem como igual.
Os franceses lembraram a mistura que têm de raças e credos e que nem sempre é bem aceite pela sociedade. Da tentativa de serem um estado laico mas que os impede de exprimirem livremente as próprias opções religiosas.
Em termos de conflitos, lembrámos a divisão espanhola e questão da ETA. Falou-se do Tibete. Das Coreias. E de muitos outros pontos do globo que ocasionalmente saem nas notícias, nem sempre pelas
melhores razões.
Quando tivemos que falar de Portugal… sentimo-nos quase envergonhados por apresentar um país cheio de sol, junto ao mar. Falámos do fado e da saudade. E em termos de conflitos territoriais… bom, há Oliveirença, que muita gente nem sabe do que se trata ou onde fica.
Somos livres. Vivemos bem. E não damos valor a isso.
Marta Velho